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O Amor do

Palhao

Uma Pardia Encarnada

Roteiro cinematogrfico

Fico 15`

Armando Praa

Fiz de mim o que no soube,

E o que podia fazer de mim no o fiz.

O domin que vesti era errado.

Conheceram-me logo por quem no era e no

desmenti, e perdi-me.

Quando quis tirar a mscara,

Estava pegada cara.

Quando a tirei e me vi ao espelho,

J tinha envelhecido.

Estava bbado, j no sabia vestir o domin que

no tinha tirado.

Deitei fora a mscara e dormi no vestirio

Como um co tolerado pela gerncia

Por ser inofensivo

E vou escrever esta histria pra provar que sou

sublime."

Fernando Pessoa

SINOPSE

Do fim ao comeo do fim. Gretchen, personalidade da praia de Canoa

Quebrada, encontrado morto atropelado numa estrada. Sua vida,

marcada pela inadequao e pelos efeitos de uma escolha mal sucedida,

retrocede no tempo formando um mosaico que desvenda sua trajetria at o

momento da fatdica deciso.O decadente percurso trilhado por Gretchen

passa pela forma como maculava seu corpo e seus sentimentos, pelo

alcoolismo, pelas tentativas frustradas de desenvolver uma carreira artstica,

pelo trabalho domstico como nica alternativa, pela promessa de felicidade

que uma vida nova possibilita, pela vida como saltimbanco de circo e chega

at o dia em que, movido pela decepo de uma trgica apresentao e

pela percepo da oposio de interesses de vida e trabalho entre ele e seu

companheiro, decide abandonar a trupe do Circo Mximo e aventurar-se

sozinho pelas ruas de Canoa Quebrada.

JUSTIFICATIVA

As caractersticas do circo moderno tal qual o conhecemos hoje foram

marcadas, fortemente, pela participao dos artistas populares e

saltimbancos que, durante a revoluo industrial e com o declnio

comercial das feiras populares, perderam seus espaos de trabalho. Foi no

circo que esses artistas margem desse processo civilizatrio, encontraram

espao para manterem vivas suas habilidades e sua arte vinda das ruas,

sem erudio e livre de qualquer intelectualismo. Apropriando-se

salutarmente de suas prprias desgraas criaram, nada mais nada menos,

que o Palhao, como representao da inaptido quela nova realidade

produtivista, ainda que tenha sido no circo que as artes populares no

folclricas comearam a se profissionalizar e a se comercializar. Ao longo

dos tempos o circo se difundiu pelo mundo, se modificou, ganhou ares

sofisticados de grande espetculo em alguns casos, mas em sua maioria,

no Brasil inclusive, continua cumprindo seu papel de abrigar esses artistas

mambembes e preservar suas existncias. Assim se deu com Gretchen,

personagem real resgatado em O Amor do Palhao Uma Pardia

Encarnada.

A histria da sua vida e morte personifica a necessidade da sobrevivncia

to cara aos artistas populares de todas as reas de atuao, assim como

a dificuldade de concretizao do sonho de seus projetos artsticos.

Atravs desse personagem e dos erros das suas escolhas, temos a

dimenso da grandeza e da tragdia dos homens e mulheres que no

resistiram aos seus impulsos primitivos e se entregaram a aventura de fazer

arte, na vida ou no palco, e no vingaram. Gretchen no s produto de

um meio hostil a sua sensibilidade, como vtima da sua convico. Era ele

mesmo, em sua majestade, o bobo do povo. Condenado a ser palhao

no circo, na vida, no sexo, na etnia, no bolso, na morte. Sua existncia

desimportante e despercebida confunde-se com a trajetria do Circo, dos

artistas e se repete no tempo. Teve o talento e no soube vender, mas

honrou seu destino at o fim, fez rir sem parar, esqueceu o racionalismo e

elaborou seu momento na mstica, no sonho e na liberdade. Um palhao

s avessas que, agonizando, desviava o olhar do espectador, tirava do

prumo, desequilibrava, instaurava o sublime no grotesco.

ABORDAGEM DO TEMA

Tradicionalmente os circos alternam em suas apresentaes nmeros em

que enaltecem o sublime e o grotesco da natureza e principalmente do

corpo humano. Utilizam-se para isso das acrobacias, do ilusionismo, dos

nmeros de trapzio e outros, trazendo ao seu pblico, elementos que

causam profunda exaltao capacidade fsica dos homens voadores,

das mulheres elsticas, e dos domadores de feras, para citar alguns.

tambm no circo que o risvel encontra no corpo e comportamento

humanos seu lugar mais apropriado. Atravs do palhao, com seu andar

desengonado, sua inabilidade completa, sua cara colorida e sua

ignorncia, as platias contemplam e divertem-se com o grotesco em sua

forma mais pura. ser filmado em Canoa Quebrada, praia de Aracati-Ce,

O Amor do Palhao Uma Pardia Encarnada, utiliza a linguagem e a

natureza dos espetculos circenses, para contar a histria e as desventuras

do personagem Gretchen, o palhao danarino do Circo Mximo.

Essa dualidade sublime X grotesco est presente em todo o percurso do

personagem Gretchen, que ao largar o circo e se dedicar a uma carreira

solo, percorre um tortuoso e decadente caminho at a morte. Sua

histria, contada do fim para o comeo, refora a importncia das

escolhas que fazemos na vida a todo instante. O roteiro construdo a

partir da mistura de seqncias que narram momentos aleatrios da vida

do personagem a momentos de circo, em que so executados nmeros

autnticos do repertrio dos palhaos brasileiros. Nmeros esses que

tambm contam metaforicamente os percalos vividos por Gretchen.

(Dando uma utilizao dramtica a reprises e entradas clssicas dos nossos

palhaos, alm de refrescar e iluminar as linguagens circenses e

cinematogrficas ao mistur-las).

Para que se elabore uma colagem desses momentos da vida do

personagem foge-se dos modelos narrativos convencionais, porm

mantendo a continuidade dramtica e principalmente utilizando-se

fortemente dos smbolos do imaginrio dos palhaos brasileiros.

ROTEIRO

1-ESTRADA - Ext./Entardecer

Sobre o asfalto spero de uma estrada secundria, o entardecer

avermelha a paisagem. Invadindo a imagem, esquerda, as unhas sujas,

os dedos negros e a mo largada ao cho antecipam o rosto sereno do

homem, Gretchen. Os cabelos ralos e esbranquiados, os olhos

semiabertos, a face grudada ao sangue que suja o caminho. O corpo

cado desastradamente, aparecendo aos poucos. O peito nu, um calo

pequeno, pernas com plos rentes, descoloridos, a pele ressecada,

acinzentada e os ps descalos e maltratados deixam a imagem,

direita, restabelecendo a paisagem por inteiro.

CRDITOS INICIAIS

2- BECO Ext. / Noite

Cu escuro, sem estrelas.

Riscando a escurido a lmpada pendurada precariamente a um poste

move-se como um pndulo, balanando ao ritmo do vento que se ouve,

ora calmo, ora violento, misturado ao barulho das palhas dos coqueiros,

das ondas do mar e do burburinho distante de uma festa.

Parte do poste que sustenta a lmpada e a parede deteriorada do beco

aparecem e desaparecem de acordo com o movimento da luz. Um vulto

pressionado contra a parede forma um relevo que se revela e se oculta

entre as sombras e luzes geradas pelo balanar da lmpada. Gretchen,

em p, prazerosamente balana o corpo em movimentos frenticos

arrastando a cara contra o reboco spero da parede, seu ombro mexe-se

denunciando a masturbao. Um solavanco mais brusco, um gemido alto,

leva Gretchen a olhar para trs e de cima para baixo ver o Homem

colado as suas costas, que trinca os dentes que lhe restam e aperta os

olhos, com mos rudes puxa com fora os quadris de Gretchen ao seu

encontro. A luz resvalante varre os corpos suados e seminus, o Homem

investe num movimento mais brusco e goza com os calcanhares

levantados do cho.

Gretchen, apoiada parede recompondo-se, retira do decote da

camiseta algumas notas de valor irrisrio, velhas e amassadas, e as entrega

ao Homem.

3- RUA PRINCIPAL DE CANOA QUEBRADA - Ext./Noite

Gretchen caminha indiferente s pessoas entre bares, barracas,

ambulantes e turistas, desviando enojado dos tipos humanos que

compem o ambiente promscuo. O alto volume das msicas se confunde

com a algazarra das pessoas.

Ele observa as pessoas a sua volta como quem mira uma presa.

Recebe de uma mo annima notas de valor irrisrio (as mesmas vistas na

seq. anterior). Retirando-se afobado enfia o dinheiro no decote da

camiseta e continua seu caminho entre as pessoas.

Dana de forma sensual e vulgar tocando alternadamente partes de seu

corpo: orelha, olhos e boca, e dedicando-os ao seu pblico num

oferecimento provocativo. Os lbios denunciam que ele canta, mas sua

voz se perde na profuso sonora do ambiente. Interrompe o show, diante

do desinteresse das pessoas e retira-se com olhar desafiador.

J diante de um outro pblico que aplaude e ri, corta a coreografia

servindo-se de um copo de cachaa num s gole.

Caminha altivo arrastando seu corpo decrpito e tentado chamar as

atenes para si.

ANNIMO (gritando em off)

Maravilhosa!!!