Balada de um Palha§o

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Balada de um Palhaode Plnio Marcos

Personagens BOBO PLIN - Palhao saltimbanco. Espiritual. Feminino. Angustiado. Linha dos palhaos-vagabundos. Desinteressado das coisas desse mundo. MENELO Tambm vestido de palhao, porm palhao prspero. Materialista. Positivista. Machista. Ganancioso. Perseguindo o sucesso. CIGANA A grande-me. Velha bruxa.

Cenrio Um espao imaginrio, que pode ser um picadeiro de circo, um altar, a sala de um puteiro, o salo de um bar, uma praa. H mdulos coloridos espalhados pelo cenrio. obrigatrio que haja no cenrio uma cadeira. Um desses mdulos deve Ter o encaixe para o violo, e outro para um chicote estilo domador de feras. No centro, ao fundo, h um mastro fixo e outro solto, ambos enrolados por uma cortina. Quando for necessrio, estes mastros se transformam em biombos, como, por exemplo, na cena dos bastidores, quando so utilizados como cortina. As msicas compostas para esta pea so de autoria de Lo Lamma, com letras de Plnio Marcos.

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PRIMEIRO ATO(A luz se abre num canto do palco, onde Bobo Plin, o palhao, canta a cano O BANDO. Num outro canto, uma bruxa cigana faz um ritual com ervas aromticas) BOBO PLIN (cantando) Um bando, Srdido bando Que sobrou das guerras. Bando faminto, Sem alento, Empestiado, Coberto de feridas E ressentimentos. Alguns esto exaustos, Alguns esto mortos, Alguns tm memria, Alguns tm medalhas Ganhas por bravura No meio das batalhas, O que dificulta Nosso entendimento. duro, muito duro, O convvio no bando. Nenhum tem coragem Para se deixar ficar. Nenhum tem coragem Para seguir adiante. Nenhum tem coragem... BOBO PLIN (melanclico) Anos e anos a fio na trilha dos saltimbancos. Andando, andando, andando. De lugarejo em lugarejo. De vila em vila. De cidade em cidade, onde multides envolvidas nas turbulncias de suas paixes se degeneram no bailado da insensatez. (Pausa. Bobo Plin aproxima-se da velha bruxa cigana) Ser sempre em praas sem liberdade, debaixo de cu sem estrela, em jardins sem flores, nas margens de crregos por onde escoa a merda, que devo armar minha poesia? (Pausa) Responda, por favor, grande-me. Isso vida? CIGANA (Ri) Bela vida, palhao. Bela vida. (Ri) BOBO PLIN Somos malditos por toda gente, obrigados a acampar nas lixeiras das cidades, somos expulsos dos lugares, perseguidos, presos, espancados. Dizem que somos... CIGANA (Interrompe brava) Que importa o que dizem? Por acaso estamos sujeitos s leis do reino da banalidade? No. No estamos. (Pausa. Depois de um tempo, mansamente) Esse no-estar, palhao, justamente nosso fascnio. Nosso encantamento.

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Nossa magia. O mistrio das nossas vidas. E nossas vidas, um constante convite para a delirante fantasia, o sonho proftico, a poesia. O nosso andar sem termo altamente instigador. Assombra o homem parado. Nossa passagem... (Ri) os grilhes... (Ri) se rompem. (Ri) s vezes, se rompem e ns arrastamos conosco alguns corpos-objetos. (Ri) Somos ladres, dizem eles. (Ri muito) Que eu saiba, palhao, nenhum de ns jamais roubou o que no pudesse carregar. (Ri) Na verdade verdadeira, vivemos com o que Deus permitiu que adquirssemos ao longo de muitas existncias. Vivemos de nossos dons e at de nossos aleijes. E tudo isso, palhao, uma grande sabedoria. (Ri. Pausa) Mas a grande maioria de ns no sabe nada dessas coisas. (Com desprezo) So sombras. Sombras, nada mais. Sombras que se agitam. So espectros que se arrastam nas margens das estradas de So Serer em formidvel miser da degenerao, como se acompanhassem o prprio enterro. (Pausa. Cigana pega o rosto do Bobo Plin e olha bem no fundo dos seus olhos. Depois de um tempo, fala como se profetizasse) Mas um nico, um nico que compreenda que est na trilha para fazer sua alma, seja voc, palhao, seja l quem for, vai compreender a necessidade de despertar o prximo e... (Ri) vai incomodar os homens-mquinas e seus atentos maquinistas. (Cigana gargalha. De repente, como se estivesse sendo perseguida, agarra suas coisas e foge. Ouvem-se ainda suas gargalhadas, quando explode msica de galope de espetculo de circo. Bobo Plin senta-se num mdulo, desanimado e triste. Entra Menelo, triunfal, como o palhao que entra na pista. Rodeia o palco com estardalhao, gritos, pulos, cambalhotas, o que puder. Pra na frente de Bobo Plin, v que ele est triste. Menelo d uns passos pra frente, uns passos pra trs, gira sobre os calcanhares. Fica nervoso, masca o charuto, anda de um lado para outro, sempre exagerado. Canastro exuberante. Pra outra vez na frente de Bobo Plin.) MENELO J sei, j sei, j sei. No precisa falar nada. J entendi-di-di-di-dinheiro. Puta la merda. Merda la puta. Aumento, aumento, aumento de ordenado. isso que voc quer. Menelo bobo, Menelo bestalho, Menelo asno, porm Menelo entendo. Bobo Plin, o palhao saltimbanco, quer aumento, aumento, aumento de salrio-rio-rio-rio. BOBO PLIN No falei nada. MENELO No falou, no falou, no falou, no falou mesmo. U, u, u. No falou, mas eu entendi. Quando voc fala, fala, fala, fala como uma matraca, matraqueia, patatipatat, patati-patat, eu no entendo. No entendo nada, nada de nada, nada de neca, neca de pitibiriba. Mas quando voc fica quieto, eu entendo tudo, tudinho. Percebo o absurdo dos seus desejos nesse seu silncio obsceno. Voc quer aumento de salrio-rio-rio-rio. Seja franco. Confesse. No se acanhe. Berre. Sonoro, corajoso, berrador. Exija. Ameace: Eu quero aumento de salrio ou... E eu respondo solenemente, embora constrangido. No cu, pardal. No fazemos sucesso, no tem aumento. esse o preo do fracasso. BOBO PLIN Mas eu no quero aumento de salrio. Nunca falei nisso. MENELO Mentiroso-oso-oso-oso. Conheo o gnero humano. Ganncia...Sei disso, como sei, sei, sei. Quando um diz que no quer, que quer. Ganncia. Mas escute bem,

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Bobo Plin, acho que algum desse bando, srdido bando, quebrou espelho de puteiro. Sete, capuchete, sete, setenta e sete anos de azar. No fazemos sucesso...Puro azar, azar, azar. E ainda por cima...o palhao fica jururu-ru-ru-ru. Fica murcho. Murchinho. Triste. Melanclico-clico-clico-clico. BOBO PLIN Eu no estou assim por causa de dinheiro. MENELO No? (Pausa) Ento qual a razo da tristeza triste do palhao? (Anda como quem pensa) Se no dinheiro...s pode...No! Ser? No! . S pode ser. Se no dinheiro, melhor. (Ri) Mulher, Bobo Plin? (Pausa) Mulher? (Pausa) Mulher, na sua vida? (Bobo Plin sacode a cabea desolado) MENELO No? Mas, puta la merda. Merda la puta. Se no dinheiro, e no mulher, o que pode ser? (Espantado e malicioso) Ah, ah, ah. Sei, sei, sei. Menelo bestalho, Menelo asno, Menelo babo, Menelo-lo-lo, Menelo entendo. Voc, como direi...No direi...O que direi ...Voc todo esprito, Bobo Plin...e esprito, (Ri malicioso) esprito...no tem sexo. (Faz gesto com a mo) Retiro o que disse. Redigo o que no disse. Ser amor? Bobo Plin est amando algum? Algum que no lhe quer? (Faz gesto de chinchada) BOBO PLIN Como poderia amar algum, Menelo? No amo nem a mim mesmo. MENELO Ai, ai, que brisa fresca soprou por aqui. No se pode nunca dizer pra um: dobra e enfia. Eles so capazes de tentar. No deu...Ai, ai, que tristeza-teza-teza-teza. No ...nem dinheiro, nem amor? BOBO PLIN No, no, no. No . Juro, Menelo. MENELO Se no nem dinheiro, nem sexo, o que pode atormentar o homem moderno? Poder? BOBO PLIN No. MENELO Menelo entendo foi pras picas. Ficou s Menelo asno, lambo, bestalho. Porm, o que sei que palhao jururu rima com fracasso.E no caso no cu-dum. E o cu-dum o meu que banco o jogo e gosto de me dar bom-trato: come bem, vestir bem, fudre bem. Mas se o palhao do meu circo fica...Qualquer idiota sabe, a alegria do circo o palhao. Mas, se o palhao...(Comea a chorar com espalhafato) Bu, bu, bu...O palhao do meu circo...Bu, bu, bu... (Bobo Plin levanta-se nervoso, sacode Menelo e ordena enrgico:) BOBO PLIN Pra com isso, Menelo. Eu no estou ligado em dinheiro, sexo, que voc chama de amor, poder, sucesso. No estou mesmo. (Solta Menelo)

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MENELO Sucesso, sei que no t mesmo. H muito tempo que no faz. Mas, se no dinheiro, mulher...digo, sexo, ou poder... BOBO PLIN No, no, no. Mil e uma vezes no. Claro que eu preciso Ter um ganho. Isso bblico: todo trabalhador tem direito a um salrio. Mas, entenda, Menelo... MENELO J entendi. BOBO PLIN Entendeu o qu? MENELO Voc louco, mas no rasga dinheiro. No sai nu na rua. BOBO PLIN O que eu quero ter prazer no trabalho que fao. Entendeu agora? MENELO No, no entendi. No entendi nada. Nada de neca. Neca de pitibiriba. Mas sempre assim. Voc fala, fala, fala, e eu no entendo. BOBO PLIN (Ri triste e fala paciente) Estou querendo dizer que no gosto do que fao. No me d prazer meu trabalho. No sinto prazer. Alegria. Teso. No tenho mais nimo para noite aps noite, espetculo aps espetculo, repetir as mesmas gagues, as mesmas pantomimas, as mesmas burletas sem nexo. Funo aps funo, eu ali no meio da pista me repetindo, me repetindo...E essa repetio embrutece, essa repetio vai me transformando num bufo privado dos sentidos, num histrio mecnico, num dbil palhao...(Suplicante) Menelo, eu no quero ser Bobo Plin, o lamentvel palhao sem alma. (Pausa longa. Menelo est pasmo. Examina Bobo Plin de longe, com cuidado. Depois de um tempo, fala cautelosamente) MENELO Bobo Plin...Bobo Plin, voc bebeu? BOBO PLIN (Suspira fundo) No. MENELO (Plido de espanto) Sem beber...sem beber, ele...Bobo Plin...fala...fala em alma. (Pausa) Estranho, muito estranho. H cinco mil anos, um pouco mais, um pouco menos, eu ando na trilha dos saltimbancos, e nesse tempo todo, quase uma vida, nunca, nunquinha, nunca de neca, de neca de pitibiriba, por tudo que mais sagrado, nunca escutei falar que um palhao ficou triste por falta de alma. Ou porque pensasse em alma. (Pausa. Menelo tenta se animar) Respeitvel pblico! Hoje tem espetculo! Espetculo de arte e luxo. Venham, mesmo que chova, e tragam a famlia. Hoje, grande novidade. Bobo Plin, o palhao com alma! (Para Bobo Plin) Ser que vem gente? (Pausa) No, no, no, no vem. Eu sei que no vem. Palhao, Bobo